
Segunda-feira, mormaço ardendo lá fora. Sons cotidianos se misturam na costumeira rotina .Há uma obviedade nas coisas que me surpreendo com uma formiga passeando em plena 04 horas da tarde! Isso é hora para formiga passear? Passear talvez não seja bem a ação correta.Acho mesmo que ela está trabalhando. Figurinha incansável ! Suspiro.
"Olá, como é seu nome?
Fumiga.
Ah! E você, qual é o seu nome?
Ota.
Ota?
Ota fumiga."
Lembro de Gabi contando esta piadinha e dando aquela risada gostosa dela. Já fazem 4 anos que ela atravessou para a terceira margem... Ai, ai.
Gabi era dessas incansáveis. Parecia uma formiguinha.Talvez por isso tenha gostado tanto da piadinha acima. Identificação.
Baixinha, estilo "mingon", cabelos prateados, olhos grandes e um coração que nem sei o tamanho.
Dizem que as mães dos maridos e ou companheiros, namorados e etc são chamadas de sogra.Sei não. O que encontrei foi uma segunda mãe, uma amiga, uma bruxa da melhor estirpe! Dessas que sabe receitar poções para tudo: piolho , chulé , dor de cotovelo ,berne , tristeza , gordura, frustração , pobreza , cabelo oleoso , horta , requeijão e o melhor biscoito de queijo da redondeza!
Gabi era dessas figuras que aqueciam o ambiente, que a gente tinha vontade de estar junto só por estar, que tinha sempre algo de muito interessante para falar, que se disfarçava de gente só para compartilhar sua sabedoria. Dizem que escolhemos tudo que acontece conosco . Até acredito, mas o difícil é entender grandes escolhas como as doenças por exemplo. Gabi teve como companheiro um câncer. Foram 15 anos de convivência até que eles precisaram ir embora.Um não ia sem o outro, daí tivemos que nos despedir de ambos lá no porto de nome esquisito e ver com os olhos cheios d'água a barca singrar o mar do infinito.
Quero aprender a arrumar minha cama assim como ela nos ensinou a sua despedida. Foram anos de sábia preparação. O sal do suor e das lágrimas se misturava no vai e vem das incertezas e inseguranças. "As abóboras se ajeitam com o andar da carruagem".
É assim que me sinto neste momento de minha vida: uma abóbora. Uma moranga daquelas! Adoro abóboras. São versáteis , nutritivas e combinam com uma porção de coisas. Fora que as cores das abóboras são pura energia.
Quanto à carruagem que me carrega o que tenho a dizer é que ela já sabe o caminho.Segue sem pressa, com paciência. O ranger de suas rodas denuncia a acúmulo dos anos e as estradas pelas quais passou.
Quando chegar minha vez de fazer a travessia vou levar muitas abóboras. Todas bem acomodadinhas sem incomodar as vizinhas , ou, se machucarem. Todas aquietadas em seus lugares e na mais plena felicidade de saber-se abóbora. Tive a sorte de encontrar pelas estradas de minha vida uma abóbora baixinha que se chamava Gabriela.

5 comentários:
Mocinha, como você escreve bem. Adoro ler o que você conta com tanta naturalidade e leve. Dá gosto viu!
Esqueci de dizer que deixei mais um selo para você no meu blog. me deu um trabalho colar a tal área de trabalho....
Puxa! Que belo texto, que incríveis vivências! Posso dizer que vi a Gabi rindo das "fumigas" e lembrei tanta coisa... O riso solto, o olhar pra lá de acolhedor, a receitinha pra enfrentar as dores da vida e dar a vida. Tenho até hoje um dos unguentos milagrosos desta bruxa que também voou por meus céus , nesta rede linda tecida de encontros, amizades, amores! Suas palavras são mais que homenagem, são acalanto e, por questão de gosto mesmo, escolho não as abóboras, mas uma cenoura, que também sabe soltar seus ramos e deixar as raízes!
beijo emocionado!
Lindo... deu uma saudade da Dona Gabriela...
Este texto está inspiradíssimo! E bem escrito. Que belas imagens! Me fez chorar, porque me trouxe de volta a vovó Gabi e sua deliciosa presença!
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