terça-feira, 4 de abril de 2017

Fevereiro

Escute só, isto é muito sério.
Anda, escuta que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leo me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?
Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.
O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?
Então. Acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah é, eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você. A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.
Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas da nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.
[suspiro]
O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos perfeitos. A esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração. Metade medo, metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo. Há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que agora exista, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.
De que lado você está, eu não me importo. De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.
É… é impossível viver no país de Deus, isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível não.
Escuta, isso é sério.
Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.
Portanto, escute.
Isto é muito sério.
Isto é uma proposta aos trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem.
Fevereiro
Matilde Campilho

Cheguei.

Cheguei.
Cá estou depois de um dia de afazeres pequenos.
Sim, pequenos. 
Os grandes deixo para ti. 
Sobre teus cotovelos aprecias as paisagens brutais e teces os fios de onde nascem os enredos.
Olho para os meninos que correm atrás das próprias sombras. Pobrezinhos.
Eles me cansam e me levam direto para a saudade de lugares que não me pertencem mais.
Cheguei. Estou cansada.
Paro, sento-me à mesa e me lembro da vida que ficou lá fora.
Sob os telhados há tanto para descobrir. Penso o que seria dos versos se não houvesse as prosas.
E são tantas!
Paro.
Antes do poente vislumbrei um tremendo agora e percebi que as horas que levaram o dia, são as mesmas horas que trouxeram a noite.
Cheguei.
Estou cansada.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O fio.

Semana passada me aventurei por memórias antigas, dessas que grudam e se misturam com nossa identidade.
Visitei lugares conhecidos, emoções conhecidas, falas conhecidas, a mesmice conhecida.
Desconheci.
Tudo estava nu: minhas crenças, meus conceitos, minhas máscaras, meus corpos. Tudo ficou absolutamente desprovido de qualquer camada.
Encarei minha transparência, minha aparente decência, minha absoluta impaciência.
Senti minhas dores e suas cores. Bambeei por abismos de desesperança.
 Meu pequeno céu esteve escuro e denso. Incômodos orbitaram meu ego.
Nestes dias turbulentos quase acreditei que sou(era) só isso. Eu sou só, não sou isso.
Desci alguns degraus e já ia esquecendo como voltar. Foi quando me lembrei de Ariadne e seu fio salvador que a conduziu para fora do labirinto.
...
Aqui fora o arco-íris reina e o fio que me salvou dá risadas gordas.
Salve Adriana!
Salve Adriana!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Na espera

Quando a gente passa da casa dos quarenta nossa rotina engorda. Além da gordura que se instala sem pedir licença, o peso dos ano, dos vincos que se instalam, da pela que despenca, há os exames que colecionamos (hoje vou levar mais alguns para minha pequena e preciosa coleção).
Senha 739. Após alguns minutos de espera sou atendida pelo simpático, uniformizado e pasteurizado atendente.
-Bom dia.
-Bom dia. Em que posso ajudar?
-Vim realizar esses exames aqui ( derramo sobre a mesa os tais pedidos ).
- Carteira de identidade por favor e carteira do plano.
- Ok.
- Assine aqui, aqui, aqui, aqui e aqui por favor. Depois é aguardar na sala ao lado que chamarão a senhora.
-Muito obrigada.
Me encaminho para a tal salinha. Lotada. Penso - Porque que eu não trouxe meu crochê? Seria uma ótima oportunidade de acabar aquele parzinho de meia, fazer aquela toquinha e de quebra iniciar a mantinha. Sem esperança de conseguir um lugarzinho dou mais uma olhada para ver se algum milagre acontece. Nada. De repente a brisa da esperança sopra na minha direção e surge o tão esperado lugar. Num impulso aracnídeo dou um salto até a cadeira e me sento. Ufa!
Reparo que à minha direita uma moça devora um livro ao estilo meignoremporfavor. A ignorei. Olhei para minha esquerda e fui fisgada por uma prosa meio monólogo.
- Nossa, eu achava o Denis Carvalho lindo! Agora olha isso!!!- Você vai fazer exame de que? Ah, aqui tem densitometria óssea? Minha médica que indicou essa clínica. Eu bebo só água, mas no aniversário de minha neta acabei tomando refrigerante.
A falação saiu de corpo de 1,60, morena, cabelo impecavelmente escovado, saia, camiseta, meias calça e sapatilha. Lurdinha.
Entre ela me dizer que só toma água, não comeu salgadinhos no aniversário da neta, comeu um pouco no casamento da filha e não sabe se comeu no casamento da outra filha e sua viuvez, se passaram 10 segundos. Meu Deus, estou com falta de ar - pensei.
Mesmo que eu quisesse falar alguma coisa não teria dado tempo. A espera quase torturante terminou com a voz da atendente me salvando, ops, me chamando lá para dentro.