quarta-feira, 8 de julho de 2020

Gabi

“Oi. Qual seu nome?
Fumiga.
Ah! E você, qual é o seu nome?
Ota.
Ota?
Ota fumiga."
 Essa era a historinha preferida de Gabi. Ela contava e ria uma risada solta, leve. Era uma formiguinha incansável. Três empregos, seis filhos, muitos maços de cigarro, rg goiano e um balaio de história para contar.
Baixinha, estilo “mingon”, cabelos prateados, olhos grandes e um coração maior ainda. Tinha receita de tudo para tudo. Bicho de pé, bicheira, dor de dente, piolho, dor no estômago, nas costas, na alma e um biscoito de queijo que fazia o olho crescer mais que o estômago. Uma segunda mãe. Sua risada ecoa gostoso em minha memória. Gabi era luz. Aquecia o ambiente, irradiava sabedoria. Tive sorte.
 Em um outubro chuvoso de 1996 recebemos a notícia que um câncer apareceu em seus ossos. Deu frio no peito, medo, tremedeira. Calma que tudo tem jeito, ela dizia. Com o andar da carruagem as abóboras se ajeitam e ajeitaram. Não como eu queria, mas como era para ser. 
Fazem quinze anos que ela atravessou para a terceira margem. Viajou fora do combinado.
Partiu levando a risada solta, as receitas de bruxa, um monte de maravilhas e as abóboras.
Nos despedimos dela lá no porto de nome esquisito e vimos com os olhos cheios d'água a barca singrar o mar do infinito.
 "As abóboras se ajeitam com o andar da carruagem". Essa frase soa como mantra em meus momentos de desespero.
É Gabi, a carruagem te levou para longe com todas as abóboras. Você podia ter deixado algumas comigo para eu lembrar que jeito é esse e que a morte é coisa sem tamanho e sem dono.
O que acontece dentro do tempo quando a gente morre Gabi?


Abandono

Carlos, olha para mim. 
A água acabou, 
o fogo queimou,
 a luz apagou,
 o ônibus quebrou,
 a empresa fechou,
 a árvore caiu,
 o sol esfriou, 
a lua escureceu,
 cadê você?
o carro enguiçou,
 o padeiro fugiu,
 o suor secou,
 a alma encarnou,
 a estrela caiu,
 a criança chorou,
 o peito murchou,
 a panela ferveu,
para onde você foi?
 o dinheiro sumiu,
 o barraco molhou,
 a comida estragou e você, Carlos
 beijou outra mulher.
Ah,Carlos.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O armário do esquecimento



  • Você vai arrumar isso mesmo, tem certeza?
  • Certeza não. Tenho necessidade.
  • E por onde você vai começar?
  • Pelo início.

    Toda casa, ou quase todas tem um móvel ou cantinho de abandonos. Velharias, coisas quebradas, fotos velhas, pilhas estragadas, pregos tortos, brinquedos cansados , vergonhas e saudade .

    O meu armário de abandonos tem tudo isso , mais a poeira, o calor da lembrança , o aconchego de reinar sozinha  esse mundo rico e o prazer de me trancar dentro dele, meu pote de tesouros.

     Muito mais que guardar as não utilidades, meu armário guarda as Adrianas que fui. Guarda também minhas quase existências e um rosário de contas de contos sem fim e minhas acalentadas memórias, preciosidades puras.

     A voz de Milton, os poemas de Pessoa, as prosas de Urbano, o abraço farto de Táta, o colo da Má, a molecagem de Teresa, o cuidado de Cota, a elegância magra de Jorge, a risada solta da Gabi, as rapaduras proibidas de Hellé, as tardes ensolaradas de minha infância, o olhar de amor de meus nove cachorros, a força do cerrado, o gramado do congresso, o violão na cúpula do Senado, a fogueirinha de papel atrás da igreja da D’Ajuda, o pique-pega debaixo do bloco, a delicadeza de Gil, Caetano, Alceu, Guimarães, a mesada transformada em picolés, a gargalhada no cemitério, eixos e tesourinhas aprumando meus rumos.
Meu armário, que agora batizo de Esquecimentos ,não abriga o que não cabe mais nas lembranças. Abriga ouro puro que, por capricho ou descuido fica escondido só para mim. Quando a vontade aperta vou lá, abro as portas e danço por horas e horas egoísta e satisfeita lembrando de mim.

Revoar

Me pediram para escolher um foto e escrever um texto. Esse pedido  é ousado, de natureza delicada, requer tempo, horas de lembrança, negociação entre as partes e muita paciência para lidar com a verdade dos anos.
Mexer com passados requer um ritual próprio, respiração pausada, mãos limpas e coração aberto. 
Inspirei, expirei, deixei a calma chegar para encontrar a chave das gavetas de dentro, as que  guardamos nossos infinitos, e com a maior das delicadezas abri.
No hiato milimétrico de minha expiração, a fenda de luz entrou gaveta adentro e uma revoada de memórias escapou sem que eu conseguisse pegar umazinha sequer. Confesso que nem insisti. Sorvi aquele momento , ou aqueles momentos coloridos, marcantes, estranhos e cheios de mim. Revoei com eles. 
Aos quatro anos emburrada na varanda da casa de minha avó, aos sete no parquinho da minha quadra, aos dez brincando na escola, aos doze com vergonha de ter virado mocinha, aos dezessete certa que existe para sempre, aos vinte e um o primeiro namorado sério, aos vinte e quatro a primeira filha( isso foi bem sério), aos vinte e nove o segundo filho( seríssimo!) e por pura preguiça de escrever outros tantos dou num salto quântico e chego aos cinquenta realizando sonhos da juventude , dou mais uns pulinhos até os atuais cinquenta e quatro, sem saber o que isso quer dizer e sem vontade de achar significados. 
As tantas revoadas que sorvi dizem por mim e para mim.
Sou aquilo tudo e um bocadinho disso também. 
Em construção. O texto e eu.

Adriana Dornellas
Julho/2020