domingo, 15 de abril de 2012

Poeiras e seus vislumbres

Texto escrito no ano passado, por ocasião de uma viagem ao Atacama.  Chile, maio de 2011, mais precisamente San Pedro do Atacama, deserto.

 Eu, três amigas, a poeira, muitos chilenos e vários outros turistas estamos aqui neste pontinho marrom, sob uma imensidão azul . Lindo!

Tudo comecou há mais ou menos um mês, quando uma amiga soltou a ideia de virmos para cá . Assim fizemos, assim estamos , assim esta beleza estonteante nos causa falta de ar, pele seca , tontura e arrepios.

Nosso portunhol arrasa, assim como o pó nos proporciona penteados inesquecíveis , espirros incontáveis e um tom meio terra aos modelitos de inverno que temos que usar . O frio aqui está de rachar: os lábios , a pele e qualquer outra parte do corpo.

Os cenários de filme, os visuais que deixam no chinelo as melhores produções globais valem cada centavo , cada rachadura na pele, cada espirro, cada mal-estar . Eles realmente são de tirar o fôlego . Literalmente. Afinal, estamos a mais de 3.000 m de altitude. Cenas lunares , miragens oceânicas , vastidão e a sensação estonteante de... vastidão. Guia contratado, passeios acertados , horários marcados e expectativa nas alturas. Acordamos cedo, tomamos o café e rumamos para onde ? Para a vastidão colorida, seca e gelada deste pedaço do Chile. Para onde vamos ele está lá, o horizonte . Incansável e presente. Carro vai, carro vem,e nos banhamos nos 360 graus de nada. Inglês, espanhol , francês, português e o dialeto da região compõem o mix turístico-cultural daqui. O bom é que todo mundo se entende. Sabe por quê? Diante de tanta beleza, não precisamos falar nada. A mudez do arrebatamento diz tudo. Na nossa listinha de passeios, não poderia faltar a ida aos famosos gêiseres. Se você quiser congelar, faça esse passeio; é perfeito para isso. Acorda-se às quatro da matina , pega-se um buzão nem tão buzão assim, segue-se por uma estrada mais ou menos e, após três horas, chega-se ao freezer ! Que tal ? Valha-me, Jesus Cristo! Que frio é aquele ?!!! Ainda por cima temperado com mal- estar, por conta de mais altitude. Misturinha mágica pra desmaiar. No duro, Lombardi ? No duro, Silviooooooooo.

 Enfim.

Recuperadas do choque, acertamos um passeio para o Salar do Yuni, Bolívia . Uaaaaaaaaauuu!!! Beleza branca de aumentar pressão. Na volta dormimos em um abrigo . Como o frio estava nos ossos, dei a ideia de dormimos as quatro na mesma cama . Não deu, mas valeu a intenção. Fizemos um sorteio, e eu e mais duas, nos esprememos na cama para ter a ilusão de um calorzinho, já que o tal abrigo não tinha aquecimento.

 Nosso guia fez o jantar : macarrão ao molho branco. Papei felizinha da vida, e quando o cansaço bateu, fui para o ninho. Detalhe : o lençol da cama não via água desde a criação do mundo, portanto, sutilmente coloquei uma echarpe que levei de reserva e fiz dela meu lençol. Até aí tudo bem, estava feliz ali perdida naquela imensidão de belezas . Só que meu intestino resolveu trabalhar, e muito, às duas da matina. Não vou entrar em detalhes, porque mamãe e papai me educaram muito bem. O que posso dizer é que dor de barriga , frio, poeira e sono, definitivamente, NÃO combinam. Depois de nossa aventura branca, voltamos alegres para casa. Trouxemos conosco muitas fotos , lembranças, risadas e a certeza de que molho branco feito nas imensidões do deserto emagrece !