segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Na espera

Quando a gente passa da casa dos quarenta nossa rotina engorda. Além da gordura que se instala sem pedir licença, o peso dos ano, dos vincos que se instalam, da pela que despenca, há os exames que colecionamos (hoje vou levar mais alguns para minha pequena e preciosa coleção).
Senha 739. Após alguns minutos de espera sou atendida pelo simpático, uniformizado e pasteurizado atendente.
-Bom dia.
-Bom dia. Em que posso ajudar?
-Vim realizar esses exames aqui ( derramo sobre a mesa os tais pedidos ).
- Carteira de identidade por favor e carteira do plano.
- Ok.
- Assine aqui, aqui, aqui, aqui e aqui por favor. Depois é aguardar na sala ao lado que chamarão a senhora.
-Muito obrigada.
Me encaminho para a tal salinha. Lotada. Penso - Porque que eu não trouxe meu crochê? Seria uma ótima oportunidade de acabar aquele parzinho de meia, fazer aquela toquinha e de quebra iniciar a mantinha. Sem esperança de conseguir um lugarzinho dou mais uma olhada para ver se algum milagre acontece. Nada. De repente a brisa da esperança sopra na minha direção e surge o tão esperado lugar. Num impulso aracnídeo dou um salto até a cadeira e me sento. Ufa!
Reparo que à minha direita uma moça devora um livro ao estilo meignoremporfavor. A ignorei. Olhei para minha esquerda e fui fisgada por uma prosa meio monólogo.
- Nossa, eu achava o Denis Carvalho lindo! Agora olha isso!!!- Você vai fazer exame de que? Ah, aqui tem densitometria óssea? Minha médica que indicou essa clínica. Eu bebo só água, mas no aniversário de minha neta acabei tomando refrigerante.
A falação saiu de corpo de 1,60, morena, cabelo impecavelmente escovado, saia, camiseta, meias calça e sapatilha. Lurdinha.
Entre ela me dizer que só toma água, não comeu salgadinhos no aniversário da neta, comeu um pouco no casamento da filha e não sabe se comeu no casamento da outra filha e sua viuvez, se passaram 10 segundos. Meu Deus, estou com falta de ar - pensei.
Mesmo que eu quisesse falar alguma coisa não teria dado tempo. A espera quase torturante terminou com a voz da atendente me salvando, ops, me chamando lá para dentro.