sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Conta de um conto

Ela se sentou na varanda e começou a contar as continhas do colar que acabara de ganhar . Cada conta tinha um brilho próprio , uma luz particular e juntas traziam o poder dos horizontes indecifrados.
Num rompante de felicidade ela correu em direção à grande árvore e se fez rainha daquele pequeno universo íntimo onde era soberana de suas próprias estrelas . Aninhou-se a uma raiz em forma de colo e pos-se a dar nome as nuvens inocentes que passeavam pelo céu. Ficou ali por um tempo sem tamanho . Ela , suas contas e o branco imaculado das nuvens.
Quando a luz da tardinha veio chegando , a menina se levantou de seu trono e voltou a varanda. Sentou-se delicadamente próxima a cadeira da avó . Naquele lugar sagrado ela ouvia muitas histórias. Histórias de sua família , daqueles que se já se foram e que agora chamamos de antepassados . Ouvia histórias de histórias , de gentes e bichos. Histórias inventadas e aumentadas. Assim ela ia conhecendo mais e mais as estrelas de seu céu único e cheio de nomes . Assim ela percebeu ,aos pouquinhos , que dentro do corpo dela havia um colar infinito de continhas e que cada continha era um pedacinho de sua vida . Nomes de tantas gentes que a avó trazia para suas histórias.
Cada conta conta um conto e cada conto é um ponto .
O manto escuro da noite abraçou a menina. Dona de suas histórias e rainha de si própria ela foi dormir . Levou consigo o colar de contas e com ele e certeza de que cada ponto aumenta um conto.

Um comentário:

Luisa Abreu disse...

Ah, as "vós" e os "vôs"! Que contas bonitas eles trazem para as nossas vidas!