Revoar
Me pediram para escolher um foto e escrever um texto. Esse pedido é ousado, de natureza delicada, requer tempo, horas de lembrança, negociação entre as partes e muita paciência para lidar com a verdade dos anos.
Mexer com passados requer um ritual próprio, respiração pausada, mãos limpas e coração aberto.
Inspirei, expirei, deixei a calma chegar para encontrar a chave das gavetas de dentro, as que guardamos nossos infinitos, e com a maior das delicadezas abri.
No hiato milimétrico de minha expiração, a fenda de luz entrou gaveta adentro e uma revoada de memórias escapou sem que eu conseguisse pegar umazinha sequer. Confesso que nem insisti. Sorvi aquele momento , ou aqueles momentos coloridos, marcantes, estranhos e cheios de mim. Revoei com eles.
Aos quatro anos emburrada na varanda da casa de minha avó, aos sete no parquinho da minha quadra, aos dez brincando na escola, aos doze com vergonha de ter virado mocinha, aos dezessete certa que existe para sempre, aos vinte e um o primeiro namorado sério, aos vinte e quatro a primeira filha( isso foi bem sério), aos vinte e nove o segundo filho( seríssimo!) e por pura preguiça de escrever outros tantos dou num salto quântico e chego aos cinquenta realizando sonhos da juventude , dou mais uns pulinhos até os atuais cinquenta e quatro, sem saber o que isso quer dizer e sem vontade de achar significados.
As tantas revoadas que sorvi dizem por mim e para mim.
Sou aquilo tudo e um bocadinho disso também.
Em construção. O texto e eu.
Adriana Dornellas
Julho/2020
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