sexta-feira, 3 de julho de 2020

O armário do esquecimento



  • Você vai arrumar isso mesmo, tem certeza?
  • Certeza não. Tenho necessidade.
  • E por onde você vai começar?
  • Pelo início.

    Toda casa, ou quase todas tem um móvel ou cantinho de abandonos. Velharias, coisas quebradas, fotos velhas, pilhas estragadas, pregos tortos, brinquedos cansados , vergonhas e saudade .

    O meu armário de abandonos tem tudo isso , mais a poeira, o calor da lembrança , o aconchego de reinar sozinha  esse mundo rico e o prazer de me trancar dentro dele, meu pote de tesouros.

     Muito mais que guardar as não utilidades, meu armário guarda as Adrianas que fui. Guarda também minhas quase existências e um rosário de contas de contos sem fim e minhas acalentadas memórias, preciosidades puras.

     A voz de Milton, os poemas de Pessoa, as prosas de Urbano, o abraço farto de Táta, o colo da Má, a molecagem de Teresa, o cuidado de Cota, a elegância magra de Jorge, a risada solta da Gabi, as rapaduras proibidas de Hellé, as tardes ensolaradas de minha infância, o olhar de amor de meus nove cachorros, a força do cerrado, o gramado do congresso, o violão na cúpula do Senado, a fogueirinha de papel atrás da igreja da D’Ajuda, o pique-pega debaixo do bloco, a delicadeza de Gil, Caetano, Alceu, Guimarães, a mesada transformada em picolés, a gargalhada no cemitério, eixos e tesourinhas aprumando meus rumos.
Meu armário, que agora batizo de Esquecimentos ,não abriga o que não cabe mais nas lembranças. Abriga ouro puro que, por capricho ou descuido fica escondido só para mim. Quando a vontade aperta vou lá, abro as portas e danço por horas e horas egoísta e satisfeita lembrando de mim.

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